Isn’t It Romantic”– Uma comédia romântica sobre comédias românticas?

Estava eu aborrecida, na passada segunda-feira, quando me lembrei de ver o “Isn’t It Romantic”, um filme da Netflix que saiu em vésperas do dia dos namorados. Acho um piadão à Rebel Wilson, e, apesar de saber perfeitamente que o filme não ia ser uma obra-prima (a pontuação de 6.0 no IMDB diz-nos sempre alguma coisa), o que eu queria mesmo era algo leve. Mas logo de seguida pus-me a rever o Kill Bill, numa de equilibrar as coisas.

Não há muito a adiantar acerca da trama do filme: uma miúda rechonchuda e com baixa auto estima cresce a odiar comédias românticas, até que bate com a cabeça e a sua vida se converte… numa comédia romântica. Natalie rapidamente se apercebe que aquilo se trata de uma “lição” para que ela aprenda algo. Primeiro julga que o objetivo será fazer com que o príncipe encantado se apaixona por ela, depois apercebe-se que é ela quem se tem que apaixonar, mas falha o alvo… Apercebe-se que sempre ignorou os sinais de uma possível relação com o melhor amigo e, no final, reconhece que a única pessoa pela qual se tinha verdadeiramente que apaixonar era ela própria. E aqui reside a essência do filme, a meu ver.

Não, não é um filme maravilhoso. Não, não tem um argumento fantástico. Muito menos uma fotografia estonteante e uma banda sonora de cortar a respiração. Mas também não era nada disso que eu precisava numa segunda-feira à noite, enquanto estava enroscada numa mantinha e massacrada da sessão de fisioterapia que me tinha deixado de rastos para as 24 horas seguintes. Ainda assim, deixou-me cativada e com vontade de o ver até ao final. O humor está dirigido de forma a roçar todos os clichés possíveis das comédias românticas, o que, apesar de ser muito meta, se torna inteligente, na medida em que a autocrítica é bastante eficaz. Os lugares comuns escolhidos para explorar não podiam ser melhores, e a personagem da Rebel Wilson é do mais sagaz e relatable que pode haver, o que me deu um certo conforto. No fundo, ver este filme não se converteu numa perda de tempo.

A mensagem que o filme transmite é o seu grande ponto-chave. Não nos diz nada que não saibamos e é do mais evidente que pode haver, mas há dias em que precisamos de isso mesmo. Neste caso em concreto, de levar um abanão para que reconheçamos o nosso valor, como somos importantes e, acima de tudo, que devemos ser o nosso primeiro grande amor. Nesta constante urgência social de sermos alguém, muitas vezes acabamos por nos perder – o que é perfeitamente normal -, mas também é preciso parar para voltarmos a encontrar o foco e a reconciliar-nos connosco próprios.

Talvez a fase da vida por que estou a passar me tenha levado a interpretar esta mensagem bastante mais a peito do que seria espectável. Por questões de saúde, tenho passado a grande parte dos últimos dois meses na minha própria companhia e fico muito, muito feliz por reconhecer que já tenho maturidade para apreciar a minha própria companhia, com os meus pensamentos, com as minhas ideias e que, apesar de não estar 100% satisfeita com quem sou de momento (a insatisfação é necessária, uma vez que é a principal alavanca para a nossa evolução pessoal), sinto-me feliz por tudo aquilo que alcancei e pelo que sou.

Só para terminar em sintonia com a onda de clichés do filme: há coisas na vida que parecem que passam por nós na altura certa!

[Um aparte, a Rebel Wilson é um mulherão! Bonita, jeitosa, com piada, canta, dança … ai ai… invejas daquelas boas, é o que é!]

“After Life”– Sobre a importância de aprender a lidar com a morte

Ricky Gervais presenteia-nos uma vez mais com a sua genialidade em “After Life”, uma nova série da Netflix, escrita e realizada pelo próprio, que estreou no passado dia 8 de março.

A série conta a história de Tony, um jornalista que acabou de perder o amor da sua vida. Depois de 25 anos de vida em comum, um cancro pôs fim à vida de Lisa, e mesmo antes de morrer, para garantir a sobrevivência do cônjuge, fez-lhe um guia em vídeo para que ele aprendesse o básico para sobreviver no dia-a-dia. Entre as peripécias da série, podemos contar com as constantes idiotices irrefletidas de Tony, frequentemente travadas pela sua cadela, um cunhado preocupado e que o tenta animar, as visitas diárias ao lar de idosos onde está internado o seu pai, o psicólogo descompensado que não ajuda em nada, entre outros.

No fundo, a trama centra-se no doloroso processo de autoconhecimento, aprendizagem e reconstrução de Tony, que aparenta recusar-se a lidar com a dor da morte, uma situação que faz parte da vida! A qualquer altura da nossa existência passaremos, decerto, por perdas e a recuperação da ausência de alguém nunca é linear ou previsível. A história oferece-nos ainda diversas perspetivas sobre como lidar com a perda, bem como acerca de outras questões, abordadas de forma mais superficial, como o bullying, o consumo de drogas ou a prostituição.

Cruzei-me com o Ricky Gervais em “Extras” e “The Office”, séries que via religiosamente em miúda na Britcom, da RTP2. Quem conhece o seu trabalho sabe da sua forma muito peculiar e única de abordar questões corriqueiras, por isso não fiquem à espera de um humor evidente e fácil, para encantar as massas. Contem mais com uma abordagem sagaz, inteligente e irónica da vida, que certamente vos fará refletir acerca do vosso quotidiano.

Trata-se de uma série bastante bonita e fácil de se ver, com a qual podemos aprender umas quantas coisas. Há alturas em que a vida parece não ter rumo e nos sentimos perdidos, mas como diz o Tony, algures no último episódio, “You can’t change the world, but you can change yourself.”.